Estamos vivendo tempos soturnos. Parece que há uma bruma espessa pairando sobre a cena política brasileira, prenunciando um iminente e pesado temporal. É certo que esse clima já vem sendo formado há algum tempo, lentamente, mas sempre crescendo. Os últimos acontecimentos, que começaram em Goiás, reverberaram por todo o País e culminaram na CPMI do Cachoeira, só precipitaram a coisa.

O teatro político brasileiro tem hoje apenas duas trupes: os que são governo e os que são opositores. Até aí, nada demais. O problema está em que esses grupos não são só antagonistas ideológicos ou políticos, mas vistos uns pelos outros como inimigos a serem abatidos. Quem não concorda com as opiniões ou a orientação de um lado, está fadado a ser, compulsoriamente, integrado ao lado oposto.

É a política no seu mais extremado maniqueísmo. Cada lado vê o outro como a mais perfeita encarnação do mal absoluto, enquanto em si só enxergam virtudes. Não há nuances mais na política brasileira. É o céu ou o inferno, o preto ou o branco. O cinza, em todos os seus tons, desapareceu. A polarização é tão extremada que contaminou até parte da imprensa mais empedernida. Grandes veículos de comunicação lançam-se à defesa de seus pontos de vista de forma venal e pueril, beirando o ridículo, e, óbvio, achincalhando os desafetos. Isso de ambos os lados, frise-se. A militância de cada grupo está permanentemente a postos para rechaçar com veemência incomum qualquer opinião em contrário. “Golpista”, “reacionário”, “subversivo” são alguns dos adjetivos lançados, nestes tempos em que se acreditava estarem fora de moda.

E ouse alguém afirmar que o ex-presidente Lula errou ao tratar do mensalão com o ministro Gilmar Mendes, num episódio de menor importância do que se alardeou, ou que o governador Marconi Perillo derrapou feio ao processar jornalistas; atitude porém, que está longe de ameaçar a constitucionalmente garantida liberdade de imprensa. No minuto seguinte já está devidamente rotulado de ser um agente a serviço da conspiração adversária.

Há muito não se vê serenidade nessas questões. Atacam-se reputações e instituições com sanha fratricida. Não espanta que pessoas sérias, com abalizada biografia, tenham evitado emitir suas opiniões nos órgãos de imprensa ou nas redes sociais, por natural repulsa à baixeza das retaliações que se anunciam.

Deixa-se de se discutir o que é relevante para fixar-se nas filigranas, desde que, claro, possa render um bom discurso contra o oponente. Reverberam-se fatos menores como se fossem capazes de abalar nossas instituições. Tudo para justificar um péssimo hábito dos políticos brasileiros: ao perceberem que existe um único oponente, que o cenário político se resume a duas forças apenas, acham mais prático e até legítimo destruir o inimigo, aniquilá-lo totalmente e salgar o campo em que surgiram, do que conviver com a divergência. Aí sim mora o perigo. Da última vez em que assistimos a uma polarização tão extrema, um dissenso tão exacerbado, o resultado não foi nada bom. Fomos obrigados a amargar duas décadas de escuridão. Tomemos cuidado, portanto.

Henrique Tibúrcio é presidente da OAB-GO

Fonte: O Popular